ACERVO MIGRATÓRIO | GALERIA CARIBÉ

Acervo Migratório

Vista da exposição Acervo Migratório, com fotografias de Emilia Brandão Carneiro na Galeria Caribé, em São Paulo.

Migrar, imigrar, emigrar: são tantas as rotas possíveis que foi preciso forjar palavras distintas que dessem conta das sutilezas do movimento. Os fluxos migratórios são o grande motor da transformação na Terra. Desde que demos os primeiros passos África afora, passando pelo período das grandes colonizações até os dias atuais, o atravessamento de fronteiras serve de pretexto para guerras e é consequência delas; desata ou estreita laços familiares, promove profundas mudanças culturais e deixa explícita a nossa assombrosa capacidade de adaptação.
Se o desejo por conquistar o que nos é externo (territórios, a natureza, outras culturas, o espaço sideral) é uma constante na história da humanidade, a partir do século XX vemos surgir, com Freud, um vetor cuja seta aponta para dentro, para o inconsciente. Em Acervo Migratório, encontramos estes dois movimentos: um deles pulsa para fora, nas rotas percorridas por Emilia Brandão Carneiro e seus objetos de contemplação; o outro percorre psiquê adentro, em um curso de introspecção – o ato de migrar para dentro de si.
Nesta exposição, reunimos séries fotográficas aparentemente muito distintas, mas que são perpassadas por um sensível fio condutor que trata deslocamentos de dentro para fora e de fora para dentro: a readaptação do cavalo Berni à vida selvagem após anos de performance esportiva se contrapõe aos cisnes da série Sentimental Journey, que Luís XIV mandou trazer da Dinamarca e da Suécia para que pudesse admirá-los em sua cidade. Na mesma Paris, Emilia registrou o sublime – e preocupante – encontro da primavera com o inverno sobre as flores das cerejeiras importadas do Japão na série When Winter Met Spring; ali, também capturou um inverno excepcionalmente longo e introspectivo em Paris Glacial. Há uma bailarina que emula os movimentos de rotação e translação: revolve em piruetas e percorre o mundo, buscando integrar-se ao ambiente em um Pas de Deux com a fotógrafa, que transita entre cidade e natureza, entre o eu e o outro (em Performance of a Dream e Study of the Sun), para captar com seu olhar as particularidades universais de cada local.
Ao tratar destes vários movimentos, as fotografias aqui expostas formam um mapa que reflete direções geográficas e jornadas internas. Em Acervo Migratório, migrar não é apenas mudar de lugar, mas reorganizar memórias, redefinir identidades e transformar realidades, em um movimento que atravessa fronteiras físicas e da própria consciência, reforçando a certeza de que, sem deslocamento, não há transformação.

Texto: Luiza Testa

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DATA: abril.2025

CURADORA: Luiza Testa

LOCAL: Galeria Caribé, São Paulo/Brasil

PRODUÇÃO: VANDL Art