MARIE CLAIRE | BRASIL

Marie Claire: “Em 1ª exposição individual no Brasil, Emilia Brandão Carneiro foca introspecção: ‘A fotografia nos permite entender a vida'”.
Em entrevista a Marie Claire, a fotógrafa celebra o marco em retorno simbólico à Galeria Caribé neste março, fala da introspecção e natureza íntima de seus registros e como se estabeleceu no mercado de arte europeu sendo brasileira
Com início na fotografia aos 15 anos de idade, a fotógrafa paulistana Emilia Brandão Carneiro vendeu sua primeira foto aos 18 na Galeria Caribé, voltada à arte moderna e contemporânea.
Hoje, aos 42, e estabelecida no mercado de arte europeu, prepara-se para reencontrar a galeria através de um marco que considera particularmente especial. Realiza Acervo Migratório, sua primeira exposição individual no Brasil, com abertura em 22 de março. “Foi uma surpresa ter sido recebida assim, e essa exposição é uma grande aposta”, diz.
Emilia vive na Europa há 17 anos. Saiu de São Paulo para a França em 2008 e, durante esses anos, também morou na Espanha e em Portugal, onde reside atualmente.
Ela conta que a decisão de sair do Brasil não foi fácil, mas que era um desejo inevitável. “Sentia que minha alma precisava ir para outros lugares. Sempre soube que meu lugar era lá”, diz.
É entre 2016 e 2022 que ela faz os registros que compõem a exposição, que tem curadoria de Luiza Testa. São sete séries ao total: Pas des deux; Study of the sun; Paris glacial; Performance of a dream; When winter met spring; Sentimental journey e Berni. As fotos são de natureza introspectiva, capturam a intimidade de Emília, mas ainda conseguem interlocução com outras realidades através das diferentes formas que ela escolhe para retratar o constante movimento transitório e efêmero da vida e o lado místico da natureza — como quando usa o contraste entre o branco da neve sobre as pétalas rosas das flores de cerejeira para mostrar a passagem do inverno para a primavera na série When winter met spring, fotografada em Paris.
“Essa é a primeira vez que levo meu acervo praticamente completo ao Brasil. São histórias que fazem muito parte da minha jornada pessoal como artista, mas em todas há a questão da migração. Isso é uma coisa que nem tinha me dado conta, mas era algo que eu estava sempre tentando entender e refletindo comigo mesma. Na série sobre o cavalo [Berni (2020-2022)], por exemplo, é um cavalo de salto que está aposentado, ele migra de um lugar de atleta para um lugar de fim da vida dele”, diz.
“Não é porque vivemos em um lugar que nosso trabalho tem que viver lá também. Meu trabalho estará onde ele for bem recebido e eu, onde me sentir acolhida. E entendi que o Brasil estava acolhendo meu trabalho. Estou superfeliz por fazer esse movimento de voltar para casa”
A fotógrafa compartilha que se estabelecer em um mercado europeu sendo brasileira foi desafiador. “Todos sabem que viver da arte é muito difícil. A Europa tem um mercado muito cruel para arte, porque outra vez você volta para o lugar da mulher imigrante. No Brasil, a gente praticamente abraça quem chega de fora, e lá não é assim. Existe um problema de confiança com o imigrante”, percebe ela. “Até confiarem, darem a você uma oportunidade e você fazer os contatos com as pessoas, tem que ralar muito. Mas eu sabia onde estava entrando, não iria desistir.”
Ao apresentar-se às galerias com uma fotografia experimental e explorando majoritariamente a escala de cinza, Brandão logo percebeu as diferenças entre sua proposta estética e a que estava em circulação no mercado àquele momento. “Na Espanha existia a necessidade de uma estética muito [semelhante à de Pedro] Almodóvar, aquela coisa expressiva, cores vivas, mais da performance e com uma plasticidade muito fácil de ser entendida”, diz. “Meu trabalho era o oposto disso, totalmente poético, misterioso e introspectivo, de um jeito que até incomoda, porque te faz olhar para coisas que de repente você não quer ver. Fui aprendendo com isso”, continua.
Parte dessas capturas de sua autodescoberta ela explica durante entrevista para Marie Claire por chamada de vídeo de sua casa em Portugal. Logo atrás de Emilia, a imagem de uma bailarina que executa um arabesque com o pé de apoio sobre uma das colunas de uma balaustrada. A bailarina é a brasileira Marina Droghetti, com quem a fotógrafa criou um laço de que se orgulha. “Essa foi a primeira vez que a gente se viu pessoalmente, em 2017, no Parque Monceau, em Paris, que a gente adora. Marina é como minha musa, somos muito amigas e sempre que nos encontramos é uma explosão criativa. Na exposição, essa foto vai estar bem ao fundo da galeria, como um grand finale”, explica Emilia sobre a foto que faz parte da série Pax de Deux 1.
Já em Sentimental journey, que ela elege como um de seus trabalhos mais marcantes, são cisnes no Rio Sena que capturam o olhar de Emilia. “Foi um momento muito duro da minha vida. Tinha acabado de ser mãe, perdi meu pai num acidente de carro. O que me fazia me encontrar comigo mesma e colocar tudo isso em equilíbrio era uma volta nessa ilha, e esses cisnes estavam sempre por lá. Para mim, eles sempre foram símbolo de majestade e conviver com eles era algo utópico. O que eu sentia quando estava lá era uma sensação grandiosa de proteção”, recorda ela sobre o período de cerca de três anos em que fez as fotos da série. “Fui fotografando eles sem muito uma intenção artística, foi mais por uma necessidade de registar aquilo. Quando fui embora da França, em 2019, pensei: ‘Eu não teria sobrevivido se não fossem aqueles cisnes’”, continua ela.
‘A fotografia é um veículo que nos permite entender a vida’
Emilia traz em sua trajetória a bagagem de quem acompanhou a transição da fotografia analógica para a digital. A primeira vez que disparou uma câmera digital foi logo em um set de Bob Wolfenson, renomado fotógrafo brasileiro. “Eu era assistente de fotografia e ele me pediu para fazer o making of da campanha. Ele estava fotografando a Gisele Bündchen”, lembra. “Bob é um fotógrafo muito observador. Ao vê-lo interagir com as pessoas aprendi que a importância do carisma no momento do encontro com uma pessoa. Tornar o momento o mais casual possível. Isso diz muito sobre a natureza do retrato.”
Ao olhar para o mercado à época e compará-lo ao atual, a fotógrafa diz perceber mudanças significativas, principalmente sobre a inserção da mulher no setor. “Não era um universo feminino. Quando comecei a fotografar profissionalmente, o ambiente era hostil. Mas eu insisti e não desisti”, diz ela. “Vejo que com a fotografia digital a coisa ficou mais democrática”, diz.
Com os retratos, Emilia trabalhou com revistas brasileiras e também recebeu o prestígio da mídia europeia. Na série Time to heal (2020) — que a levou a ser convidada pela Leica, marca de câmera alemã, como uma de suas embaixadoras —, fotografou os rostos de 150 profissionais de saúde de 33 hospitais de Madri, na Espanha, durante os primeiros meses da pandemia de covid-19. A homenagem, ela pretende transformar em livro e publicá-lo ainda neste ano. “Nunca tinha fotografado a dor dessa forma. Mas sentia que precisava mostrar esses rostos e essas histórias”, diz ela. “Minha intenção sempre foi que essas fotos ficassem como um marco na história. O trabalho que essas pessoas fizeram dentro dos hospitais eu não tenho palavras para descrever. Essas pessoas estavam isoladas, não tinham contato nem com os próprios familiares. Quando elas chegavam, desabafavam. Foi muito catártico”, reflete.
Para a retratista, clicar uma foto é sair de um lugar de inquietação. “Para mim é como se fosse um diário, em que eu precisasse escrever para poder seguir minha vida”, define. “A fotografia é um veículo que nos permite entender a vida. Como fotógrafa, busco, visualmente, traduzir e comunicar uma história.”