APRENDER DA PEDRA
(work in progress)
Barbizon, Floresta de Fontainebleau/ França
2020 a 2025
- womb
- ground
- contact
- head
- energy
- pyramid
- flow
- worship
- guidance
- time
- leaf
- sand
- tree bark
- king
Artist Statement
Aprender da Pedra
Esta série nasceu de uma ruptura.
Em 2020, durante os meses de confinamento em Madrid, fotografei profissionais de saúde dentro dos hospitais, na série El tiempo de cura. Cercada pelo pânico, pela exaustão e pela coragem, vi de perto o limite entre vida e morte. A cada relato dos 150 profissionais que fotografei, percebia o colapso de uma crença antiga: a da separação. Entendi ali que somos um só corpo — entrelaçados, frágeis e vulneráveis diante de algo invisível. Como diz Deepak Chopra, we are all connected, entangled — minds, bodies, universe.
O ego humano desmoronou, e em seu lugar surgiu o impulso de buscar sentido naquilo que permanece: o espírito, o universo e a natureza.
Meses depois, quando finalmente pudemos deixar a Espanha, fui para Barbizon com a minha família — um lugar que frequento há anos, junto à floresta de Fontainebleau.
Ali encontrei uma força que os pintores da Escola de Barbizon já haviam descrito como “mágica e espiritual”.
Corot dizia que a floresta era “uma catedral”, e Rousseau a via como “a morada da alma da natureza”.
Seguindo esses ecos, adentrei a floresta como quem busca comunhão ao entrar num templo.
Pela primeira vez, senti a necessidade de voltar a câmera para mim.
Despi-me diante dela — com medo, mas em reverência.
Quis dissolver o corpo nas forças que sustentam a vida: luz, terra, rocha, ar.
Meu corpo, de mulher e mãe, tornou-se antena dessa vibração invisível que pulsa em tudo.
Compreendi que somos feitos de 1% de matéria e 99% de energia, e quis pertencer a essa consciência universal que me chamava.
Como escreve Marcelo Gleiser, “somos o universo tomando consciência de si mesmo.”
Ao me fundir à natureza, percebi que essa consciência não é humana, mas cósmica — um pulso que atravessa tudo o que existe.
Durante cinco anos, me entreguei em reverência a essa floresta e vivi um aprendizado contínuo.
Aprendi com as árvores a respeitar o ritmo das estações, com as pedras o poder da paciência e da permanência — essa dicotomia perfeita que convive em harmonia.
Entendi que a natureza não é refúgio, mas mestra.
A cada feixe de luz que atravessava as folhas — aquilo que os japoneses chamam Komorebi, “a luz do sol que passa através das árvores” — eu via a própria impermanência da vida.
Esse brilho intermitente me lembrava que a existência é feita de presença e ausência, e que há beleza no instante que se esvai.
Ali, cada clarão era também uma oração, um novo gesto de reverência.
A fotografia, nesse contexto, tornou-se rito e escuta — uma forma de oração silenciosa diante da matéria viva, uma tentativa de registrar o aprendizado invisível.
O título Aprender da Pedra nasceu da lembrança do poema de João Cabral de Melo Neto, A educação pela pedra:
“Uma educação pela pedra: por lições; para aprender da pedra, frequentá-la…”
Assim como o poeta, busquei aprender com o que é duro e essencial — com o que resiste.
Com a pedra, aprendi o tempo e o silêncio; com a luz, a impermanência.
Esta série é, portanto, um percurso de reconexão.
Um diálogo entre corpo, matéria e espírito.
Um chamado à escuta daquilo que o universo ainda tenta nos dizer — nas pedras, nas árvores, no sol, e dentro de nós mesmos.
Texto: Emilia Brandão Carneiro
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Aprender da pedra
Fotografias de Emília Brandão Carneiro
Entre o ímpeto de retorno e o assombro do esquecimento, o corpo feminino busca, numa floresta arquetípica, reencontrar sua própria seiva. A luz, que outrora iluminava caminhos, agora se excede e abre um portal para alguma dimensão possível.
Nesse gesto de entrega, o corpo desaprende a erguer fronteiras. Aprende, em contrapartida, o tempo fecundo das estações e a paciência das pedras. O feminino, aqui, é matéria em dissolução — uma forma que se abre para acolher e ser acolhida por outras existências.
Esse corpo não quer pertencer à natureza: quer ser natureza. Quer deixar que a rocha se inscreva em sua carne, que os feixes solares tatuem versos sobre sua pele, que o pó cósmico vertido em areia edifique novas paragens.
Nessa performance traz à luz fotografias, Emília propõe um corpo em trânsito entre a condição humana e sua destinação. Um corpo que não busca apenas representar a paisagem, mas fundir-se a ela — experimentar, na própria pele, a memória geológica e vegetal do mundo.
Em Apprendre de la pierre, o gesto de mimetização não é fuga, mas retorno. Ao reintegrar-se à vegetação, às rochas e à terra, o corpo feminino reativa sua memória primordial: a da cosmovisão, onde matéria e espírito não se polarizam, mas coexistem. É no limiar entre o orgânico e o mineral que se manifesta o desejo de reconexão ontológica — o anseio por reencontrar o ritmo do planeta, por dissolver-se no ciclo maior da existência.
Na tensão entre visibilidade e apagamento, essa série em desenvolvimento nos convida a repensar o corpo não como fronteira, mas como ecossistema: um território sensível onde a carne aprende novamente a escutar o som das pedras e o rumor das folhas — e, assim, reencontrar sua natureza primeva.
Texto: Eder Chiodetto













