Ateliê Casa Um, SP | exposição coletiva

“A Chama de uma Centelha”

Exposição coletiva da mentoria Flamma I

Curadoria e Produção: Marina Bortoluzzi

Abril.2026

Local: Ateliê Casa Um, São Paulo/Brazil

Obra exposta: “Study of the Sun I”

 

Exposição coletiva no Ateliê Casa Um, São Paulo, com pinturas, esculturas e Study of the Sun I, fotografia analógica de Emilia Brandão Carneiro Exposição coletiva no Ateliê Casa Um, São Paulo, com pinturas, esculturas e Study of the Sun I, fotografia analógica de Emilia Brandão Carneiro Exposição coletiva no Ateliê Casa Um, São Paulo, com pinturas, esculturas e Study of the Sun I, fotografia analógica de Emilia Brandão Carneiro

 

IMPRENSA

PRESS

PRESS II

PRESS III

PRESS IV

PRESS V

PRESS VI

 

ARTISTAS

ANA AUGUSTA SILVEIRA

ANA CAROLINA VIDEIRA

A TRANSÄLIEN

CAROLINA LEAL

CYNTHIA LOEB

DANIEL SUL

EMILIA BRANDÃO CARNEIRO

GIA PORTAL

GIULIA D’ANDREA

ISABELLA D’ELIA

JADE PAMPLONA

JULIA ROGENSKI

JULIE SOPHIE

KATRYN BEATY

KIKA SIMONSEN

LÍA MATOS

MARIA VICTÓRIA SZALOCK

OLIVIA NACHLE

PALOMA GOVÊA

PAMELA LAHAUD

PAULO KURAZUMI

RENATA BARRETO

THAIS BERTOLIN

__

Centelha é o instante em que a matéria bruta desperta para si mesma um lampejo, uma intuição. Um ponto de luz incandescente que fende a escuridão antes da compreensão dos olhos. Essa partícula ígnea, em forma de faísca, chispa ou fagulha, aparentemente em vôo solo, surge com uma força eletrizante, sem controle ou consciência de sua própria energia e potência. Ainda assim, mesmo que se sinta insignificante, esse estalo é suficientemente fértil para inflamar uma fogueira ou se alastrar e incendiar uma floresta inteira.

Ao longo dos últimos dois meses, 23 artistas visuais brasileiros, residentes no Brasil, na Europa e nos Estados Unidos, fizeram parte da primeira edição do Flamma — Programa de mentoria e acompanhamento crítico- curatorial da plataforma Spiritual in Art, da qual sou fundadora e pesquisadora. Sob minha orientação e incentivo, o grupo, que já apresentava em comum a investigação sobre propriedades espirituais, metafísicas e invisíveis em suas produções, pôde ampliar e refinar suas pesquisas, transmutar velhas crenças e expandir sua prática para, em ressonância, atingir o ponto mais alto de sua jornada artística e espiritual até o momento.

A partir de trocas de experiências, positivas e complexas, ao redor da imensidão do fogo, compartilhadas durante nossos encontros, foi canalizado que este elemento natural precisava, como uma tocha, guiar a exposição. No desenrolar deste período, os artistas estavam, muitas vezes, ainda que com espanto, batendo uma pedra contra a outra para fazer faísca. E, embora, vivenciando todo o processo coletivamente, cada um descobriu individualmente seus tempos, ritmos, sentimentos e possibilidades de criação artística, em um exercício diário para que um raio, figurativamente, caísse em suas cabeças, trazendo as mensagens que poderiam ser retratadas nesta mostra.

As correntes gnósticas sustentavam que cada ser humano apresenta uma scintilla animae (centelha anímica), uma semente de luz ou fragmento de um fogo-Deus maior, em busca de retornar à fonte. O conceito ganha corpo na mística medieval, especialmente com o teólogo Mestre Eckhart, que defendia que essa centelha reside no fundo da alma, no ponto de encontro do humano com o divino ou com o Eu-Superior. É nesse âmago que temos a conexão com o todo. A centelha é o sol invisível no centro do ser humano: ao mesmo tempo a menor coisa e a mais essencial.

O Corpus Hermeticum e a Tábua de Esmeralda, atribuídos a Hermes Trismegisto, revelam que o fogo primordial não nos pertence, somos feitos dele. Os sete princípios herméticos que estruturam essa cosmologia atravessam o território desta exposição, em especial três: o princípio da Correspondência, sintetizado na máxima “como acima, assim abaixo”, que revela que a chama interior e o fogo do cosmos são a mesma força em escalas distintas; o princípio da Vibração, segundo o qual nada está em repouso e tudo pulsa em frequências que se transformam, como o próprio fogo, que jamais é o mesmo por dois instantes consecutivos; e o princípio da Polaridade, que ensina que luz e sombra, criação e dissolução não são opostos absolutos, mas graus de um mesmo espectro. Nessa visão, a escuridão não precede o fogo por acidente, ela é a condição que o torna visível.

A exposição parte do fogo mais terreno, ardente e ancestral, e percorre as interpretações do imaginário ígneo até alcançar um estado de maior transcendência. Há referências na alquimia, onde o fogo é o grande agente da transformação, no casamento entre o sol e a lua. Da Grande Obra alquímica, que atravessa o negro da putrefação e o branco da purificação até o vermelho da pedra filosofal, quando o ovo alquímico se abre revelando o ouro. O Tarot também é convocado, com Paus como naipe do fogo, que ressoa em uma das peças desta mostra, evocando a expansão por meio da partilha e do rito coletivo. A individuação psíquica de Carl Gustav Jung também se faz presente: na travessia das próprias densidades como condição para a ascensão a estados elevados de consciência, que aqui culmina, na tradição védica, na figura de Agni, divindade do fogo. No Bhagavad Gita, texto sagrado hindu: “não acender o fogo significa recusar-se a aceitar o comando do si- mesmo”.

As obras reunidas aqui atravessam esse campo simbólico por linguagens e técnicas distintas, como pintura a óleo, acrílica, aquarela, pastel seco e oleoso, em pigmento, e spray; fotografia encenada, com múltipla exposição, e expandida; vídeo, projeção, instalação; escultura em cerâmica; têxtil bordado à mão, com palavras ou fragmentos de espelho, pedrarias e aviamentos. O inconsciente irrompe em paisagens oníricas, veladuras cromáticas, processos de transmutação, picos de canalização, conexão com a natureza e o cosmos, portais e rituais.

Gaston Bachelard, em A Psicanálise do Fogo, propôs que o fogo é o elemento que mais convida à rêverie, esse estado flutuante entre o sonho e a vigília em que a imaginação se aprofunda em vez de se dispersar. Em A Chama de uma Vela, Bachelard se dedicou ao encantamento de uma chama solitária e ao que ela é capaz de despertar no sonhador e é desse pensamento que parte o título desta exposição: a presença de uma chama que nasce do mínimo e, ao se sustentar no tempo, ilumina cada vez mais. A centelha é esse chamado interno dos artistas; a chama, a energia que a obra emite ao se encontrar com o outro. Uma única faísca é suficiente para iniciar a ignição; um único trabalho que toque sua profundidade verdadeira é capaz de iluminar quem o contempla. Este é o convite da exposição e do programa que a originou: que cada um reconheça a centelha que lhe pertence e, ao fazê-lo, a acenda.

Texto: Marina Bortoluzzi