CADENA SER | reportagem

Tristeza, dor, desespero, exaustão e impotência. É o que transmitem as fotos realizadas durante a pandemia a 150 profissionais de vários hospitais de Madri. Uma galeria sem cor, e com emoção, que reconhece aqueles que continuam nos curando e cuidando.

María Manjavacas

Cadena SER 03/11/2020 – 16:48

Madri

Realizado durante os meses de março e abril de 2020, “O tempo de cura”, que é o nome da exposição, é uma homenagem aos profissionais de saúde que enfrentam, na linha de frente, um inimigo invisível. É um projeto pessoal da fotógrafa brasileira, residente em Madri, Emilia Brandão. “Em meados de março em Madri, minha cidade adotiva, minha vida, assim como a do resto da humanidade, mudou radicalmente por causa do Covid. Enquanto vivia confinada com minha família em casa, senti uma urgência de querer ajudar e retratar os heróis que combatem na linha de frente. Acredito que um retrato tem a força de um aplauso e sentia que eles precisavam desse reconhecimento. Queria dar-lhes rostos e nomes, gerar memórias para algumas das pessoas que viveram de perto a luta contra o vírus”, explica a fotógrafa.

“O pior que já vivi”

Inés García Calvo, enfermeira de urgências no Hospital Gregorio Marañón de Madri, diz e repete isso. “Quando comecei a estudar, estava começando a epidemia de AIDS, estávamos em todas as pesquisas, não se sabia o que era até que foi identificado, e eu nunca tive tanto medo na minha vida. E mais do que medo, era desespero”, conta Inés, que lembra um de seus piores momentos na sala de espera das urgências, um dia em que chegou com 300 doentes quando a capacidade era de 60. “Eles estavam em cadeiras e não podíamos levá-los a lugar nenhum. Te olhavam com uma desespero”, relata Inés.

Outra colega, Esther Monje, auxiliar de enfermagem, lembra do pior momento de sua carreira quando viu um paciente morrer em seus braços porque a família não pôde acompanhá-lo devido aos protocolos do Covid.

Elisa Castreño é a governanta do Gregorio Marañón, coordena os serviços de limpeza. Ela trabalhou no Iraque quando a guerra estourou e lembra disso como muito pior. “Na guerra você pode ter algumas horas ruins, mas depois há momentos em que você pode se apegar, abraçar. Com o Covid não. Você tenta ficar afastado por medo de contágio. Esse bicho nos deixou sem calor humano, que eu sinto tanto falta”.

“O tempo de cura”

Para tirar as fotos da exposição, foi instalado um estúdio fotográfico durante vários dias dentro de cada um dos três hospitais madrilenos: Puerta del Hierro de Majadahonda, Gregorio Marañón e Universitário del Sureste. “Enquanto trabalhavam dias e horas sem descanso, sem tempo nem energia para assimilar tudo o que estava acontecendo internamente, eu oferecia uma pausa, uma cadeira sob minha luz para conhecê-los e ouvir como se sentiam. Ao convidá-los para um momento de tranquilidade, muitos se conectavam com suas emoções pela primeira vez desde o início da pandemia. Longe da imagem heroica que carregavam, pude ver de perto a natureza vulnerável desses seres humanos, que curam e cuidam”, explica Emilia Brandão. A fotógrafa conta que o objetivo deste projeto é retratar as equipes hospitalares que estão lutando e sacrificando suas vidas para salvar e curar milhares de pessoas da Covid. A exposição pode ser visitada na galeria Leica de Madri até 12 de novembro.

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